CAPILÉ é artista visual e designer (formado pela Esdi/Uerj), com foco em conceitualidade e experimentalidade. Participou de ‘Assoma’ (EAV, 2023), ‘Notícias à boca miúda de um mundo sem rumo’ (Galeria Paulo Branquinho, 2023), ‘Sinais sismais’ (EAV, 2023), ‘Onde certezas corrompem’ (EAV, 2024).
Com foco na objetualidade da pintura, busca mudar a perspectiva dos cânones da arte e cultura ocidental, questionando o que valorizamos em uma obra de arte assim como em nossa sociedade. Nos seus trabalhos mais recentes, utiliza de materiais descartáveis como suporte, que são evidenciados nas figuras que são omitidas em nossa sociedade, objeto central destas obras.
100 cm x 200 cm (cada)
tinta acrílica, esmalte sintético, verniz, papelão, madeira
2023

Mais uma peça da série Síncope que questiona o suporte e a objetualidade das obras, utilizando peças descatadas como base para a concepção da obra.
Sobre uma cena que evoca festa, uma orgia ou um incêndio (em resumo, o carnaval), uma figura central, em escala humana porém com membros esguios e finos, é composta justamente da ausência de pintura, denotando o suporte feito de caixas de papelão remendadas. Esta figura assume em suas mãos a silhueta de ferramentas: uma mão-martelo e outra mão pá ou escavadeira, ele é um catador de latinhas -- figura comum em festas e aglomerações ao ar livre no Rio -- segurando uma latinha prestes a entrar no saco. Mais um dos vários trabalhadores que sustentam o carnaval (e tantas outras festas), mas são esquecidos no processo: simplesmente apagados, não devem ser vistos, são os seres descartáveis.
Em termos de conceito, o descartado e outros conceitos levantados na peça, remetem todos a valores que o colonialismo, em seu dualismo branco/não-branco, europeu/não-europeu expurgou da categoria humano: o degenerado, o inferior, o pobre, o exótico, o descartável (hipótese atríbuída a Aníbal Quijano por João Francisco Cassino em O Sul Global e os Desafios Pós-Coloniais na Era Digital).
O título é inspirado no famoso refrão de Swing de Campo Grande: "Minha carne é de carnaval, e o meu coração é igual" onde o sujeito e sua carne, exposta, são objetos descartados ou pior, como no caso das embalagens, principalmente as de papelão, são objetos feitos para apenas um fim rápido e temporário, visto como sem muita importância, para depois serem esquecidos pela sociedade.
A estrutura das telas é feita do reaproveitamento de um banco de jardim, gasto com o tempo, montado com parafusos à mostra. A própria camada de resíduos que foram lixados das madeiras viraram matéria para a tinta que pinta o papelão. Todos os objetos trazem consigo uma memória, uma história, que não foram apagadas no objeto final. A obra é avessa à higienização e industrialização, seus objetos tem pele e secreções.
O carnaval, insinuado na carnalidade da festa em cena, é visto como degenerado, exótico, selvagem -- mas não está em oposição ao herói em primeiro plano, este é seu habitat, seu meio. Ele transita, ainda que invisível aos seres no fogo, sem que tenha sido apagado de significado: pelo contrário, ele tem texturas, marcas, dobras e sobreposições em sua pele que trazem cada um pequeno sinal que já foi útil e hoje querem esquecer. Ele que é descartado não deixa de existir, nem se torna menos humano.
82 cm x 135 cm (cada)
tinta acrílica, verniz, papelão, madeira
2025
