Segundo o ensaio DAS UNHEIMLICHE de Freud ꟷ publicado em 1919, ano que se segue ao fim da Primeira Grande Guerra ꟷ tudo o que antes nos era familiar, se recalcado inconscientemente, há de retornar como angústia e susto. Viriam daí, no instante de suspensão entre reconhecimento e compreensão, os sentimentos de estranheza e inquietação que perturbam tanto os dogmas quanto as verdades objetivas.
Exposição reunindo 13 (treze) artistas de diferentes gerações, práticas artísticas e visões de mundo, A INQUIETANTE ESTRANHEZA DO LUGAR DO OUTRO propõe cogitar como a arte brasileira lida atualmente com essa conversão do habitual em não-familiar. Ambicionando inesperadas respostas poéticas que mesclam fatos da realidade, fábulas e ficções humanas, trata-se de realizações dominantemente figurais, variáveis da pintura à instalação, passando pela fotografia e escultura ꟷ a saber: o utopismo identitarista dos édens de ALEX DA HORA; o humanitarismo em crise na árida retratística de BETH FERRANTE; o consumismo programático nas sátiras liliputeanas de CAPILÉ; o moralismo desconstrutivo nas danações anatômicas de CLÁUDIO MONTAGNA; a lacônica alegoria da extrema-direita na escultura de GRAÇA PIZÁ; as ambivalências da farmacologia totêmica de JÚLIA GARCIA; o hibridismo paródico da estatuária de KATIA POLITZER; o existencialismo lírico dos migrantes de LEDA GONDIM (in memoriam); a sinistrose nomofóbica na paisagem dilutiva de LUÍS BAILEY; o memorialismo expurgativo-curativo na transição da infância à vida adulta de MARGARET DE CASTRO; as dessincretizações e fusões quiméricas de NOT A DOCTOR; o ritualismo lúdico dos objetos étnico-alusivos de REITCHEL KOMCH; e a reversibilidade formal das invenções sensualistas de SOLANGE JANSEN.
Quer enquanto dispositivos plástico-visuais relacionáveis a uma história da arte contemporânea, quer agentes simbólicos para representação de estranhamentos próprios a uma sociedade ‘fluída’ e de sujeitos sem unidade psíquica a essa altura da terceira década do século 21, essas obras se pensam hipóteses acerca do custo existencial por transformarmos choques em hábitos. Ou ainda, nos indagar sobre a anestesia de cotidianos difusos que a tudo e a todos submete fatalmente ꟷ e contra a qual os fenômenos de arte agem, de assombro, para ruína de enganos e autoenganos.
Beth Ferrante + Margaret de Castro
[curadoras]